logo


Hip hop literato

A ideia nasceu na França, “numa conversa de boteco”, em 2009, como conta Frédéric Pagès, músico francês que se apaixonou pelo Brasil e sua cultura ainda em 1979, quando desembarcou pela primeira vez no País, no Porto de Santos. Ao lado de Frédéric, idealizador do projeto ””Manual de Literatura (En)Cantada””, está também o percussionista e produtor Xavier Desandre-Navarre, outro francês.

Mérito do esforço simultâneo de Brasil e França, o projeto ganhou vida e até laboratório para experimentos. O ponto de encontro da dupla é local conhecido em Diadema: a Casa do Hip Hop. A ideia é transformar em música textos de escritores como Machado de Assis, Mário de Andrade e Bruno de Menezes.

“Vi que tinha muito talento e potencial artístico por aqui, só que eu queria um projeto que fosse útil para a comunidade. Queria algo a mais. E veio a ideia de gravar o CD”, afirma Frédéric, que faz a ponte Brasil-França desenvolvendo projetos há 30 anos.

Outro francês que comemora o resultado do trabalho é Serge de Connor, vice-presidente da Assossiação Carta Oceano e apoiador do projeto. “Aqui o jovem é muito positivo. Mesmo com todas as dificuldades eles têm uma energia fantástica, veem as coisas de maneira positiva”, afirma Connor.

DJs, MCs e dançarinos – todos envolvidos na cultura hip hop e na arte-educação – participam das oficinas de criação ministradas pelos franceses. O resultado desse trabalho não ficará apenas nos alto-falantes. O livro-CD – com previsão de lançamento para junho – irá para as salas de aula. Uma maneira de fazer os alunos se interressarem por literatura a partir da música. “Tenho um método pedagógico. Improvisar com textos, brincar com a sonoridade. Já tinha feito isso em Belém. Queremos produzir CD prazeroso para escutar e que seja também objeto que possa ser útil aos professores”, explica o idealizador, que é apaixonado pelo trabalho do educador e filósofo Paulo Freire .

A escolha dos autores teve como norte a literatura afro-brasileira. “Machado de Assis era neto de escravos. Bruno de Menezes era negro. Já em 1930, Menezes trabalhava o conceito da negritude. Na mesma época, na França, tivemos poetas que trabalhavam isso também”, afirma Frédéric. Uma das faixas do álbum terá junção de poesia de Menezes com poesia do francês Aime Césaire, ””Batuque”” e ””Batouque””.

A criação das músicas foi experiência incrível para os músicos e DJs Eddy e Dan Dan. “É importante ter novas experiências. Pegar esses textos e levar para o hip hop é algo novo”, diz Dan Dan. Para DJ Edy, participar dessa empreitada tem sido difícil, porém gratificante. Segundo ele, ficaram tão unidos que isso ajudou até no processo final. “O grupo se fortaleceu, um ajudou ao outro”. Um show de lançamento do CD será organizado assim que o disco ficar pronto.

Projeto incentiva pesquisa cultural e novos talentos
Não é só no nome de grandes e conhecidos autores que o projeto ””Manual de Literatura (En)Cantada”” se baseia. Textos de escritores da periferia também servem como instrumento de trabalho para as canções que músicos da região e da Capital estão preparando para o CD.

Você pega poetas, escritores que fizeram história e ao lado deles tem um amigo seu, escritor novo, no mesmo patamar. Hoje temos escritores na periferia se destacando”, diz Big Edy.

Frédéric Pagès conta que fez questão de trabalhar com profissionais e que todos os envolvidos fossem reembolsados. “Quero que possam crescer. Ter novas ideias, aberturas, que tenham algo novo no currículo. Eles são muito dedicados.”

Além de destacar músicos e escritores das periferias, o livro-CD é visto como ferramenta para que tanto os alunos que o usarem nas escolas quanto os que se interessarem por conta do som mergulhem na cultura literária e musical.

“Hoje o mundo conhece James Brown, porque muita gente o sampleou. Esse projeto instiga a pesquisa da música e da literatura. Você vai além da palma da tua mão”, afirma Dan Dan.

Ainda não foram encontrados posts relacionados.