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Principal museu francês de arte contemporânea mira no Brasil

Imagem: Saindo de Rota

Os olhos do Centro Pompidou estão fixados no Brasil. O principal museu de arte contemporânea da França vem trabalhando silenciosamente em território nacional para encontrar parceiros locais e trazer ao país exposições temporárias que levem sua marca. Enquanto isso, em Paris, a prestigiada instituição adota uma “política ativa” de aquisição de obras brasileiras. Quer tornar mais robusta a presença do Brasil em seu acervo.

Em entrevista ao GLOBO, o recém-reeleito presidente do Pompidou, Alain Seban, enaltece a cena de arte contemporânea brasileira e a classifica como “uma das mais apaixonantes do mundo”. Revela ainda qual é a estratégia do museu para estreitar relações com o país: o investimento em novas aquisições e a exibição de parte de seu acervo por aqui.

– Recentemente, com apoio de um grupo de colecionadores franceses e latino-americanos, compramos trabalhos de Ernesto Neto, José Damasceno, José Bechara e Rivane Neuschwander – diz Seban.

Além disso, o Pompidou vem tentando enriquecer sua coleção com obras da arte moderna brasileira. Recebeu em doação do mecenas americano Daniel Brodsky, por exemplo, “Caranguejo” (1960), um dos “bichos” de Lygia Clark. Atualmente, o museu conta com aproximadamente 600 obras de cerca de 60 artistas brasileiros. E ainda quer mais.

Não está nos planos do Pompidou, no entanto, abrir um braço permanente no Brasil – ou em qualquer outro país. A instituição, que em 2010 deu o primeiro passo em direção à descentralização (com a inauguração do Pompidou-Metz, em Lorraine, na França), quer que seu acervo, de 70 mil obras, circule mais.

– O Brasil tem todas as ferramentas para desenvolver suas próprias instituições, como os Estados Unidos têm o MoMA, ou a Inglaterra, a Tate. Não creio na implantação de um Pompidou permanente no exterior. Por outro lado, acredito que podemos levar nosso apoio e expertise para projetos de duração temporária.

Um museu global e virtual

O pensamento de Seban sobre a arte nacional está totalmente alinhado com o da curadora-chefe da instituição, Christine Macel. Sem economizar, ela diz que “a história da arte no século XX não pode ser escrita sem mencionar artistas como os neoconcretos Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape”:

– Ando especialmente fascinada por Lygia Clark, que viveu parte de sua vida em Paris, mas ainda é pouco conhecida do grande público francês. Ela inventou uma arte baseada na ação e na interação, em que o espectador se torna o verdadeiro ator.

Christine assina a curadoria de “Danser sa vie”, em cartaz atualmente junto com a exposição principal da casa, de Henri Matisse. Na mostra, ela encontrou espaço para incluir parangolés e um vídeo de Kátia Maciel em que o poeta Waly Salomão veste uma das peças criadas por Hélio Oiticica. A exposição sobre dança, que termina na próxima segunda-feira, tem média diária de quatro mil visitantes.

Com relação à arte contemporânea brasileira, Christine também se mostra animada. Lembra que o Pompidou já exibiu, por exemplo, vídeos de Janaina Tschäpe e que efetivamente vem aumentando seu acervo.

Segundo o presidente do museu, existem muitos projetos em discussão para que o Brasil acolha mostras de duração limitada do Pompidou. Seban, porém, evita detalhar as negociações.

O interesse no país é reflexo não só do alardeado boom da arte do Brasil, mas também da presença maciça de brasileiros pelos corredores do museu. De acordo com as últimas pesquisas da casa, o Brasil está entre os dez países que mais levam visitantes ao Pompidou anualmente – ganha de chineses e japoneses, e é o segundo no ranking dos não europeus, perdendo apenas para os Estados Unidos.

Para Seban, a América Latina é o “centro criativo mais ativo e dinâmico do mundo”, e ocupa “evidentemente um lugar prioritário” no cenário cultural. O interesse é tanto que, há dois anos, o museu conta com a consultoria de um grupo de especialistas e colecionadores de arte latino-americana (o Centro Pompidou América Latina), que o direciona nas aquisições de obras de arte por aqui.

O presidente explica que o movimento em direção ao Brasil também é parte de uma estratégia maior, de “mundialização” da marca Pompidou.

– Para um museu de arte contemporânea no século XXI, o que está em jogo é justamente isso. A arte se tornou global. Nossa coleção se pretende universal e, então, deve refletir essa nova geografia da criação, abrindo-se às cenas emergentes. Para isso, precisamos reorganizar profundamente o museu e encontrar novos meios de aumentar a coleção.

Dentro do pacote da “mundialização”, há ainda a proposta de criar um Pompidou virtual. Previsto para estrear em setembro, o projeto não é apenas um museu digital, mas, segundo Seban, abrirá na web todo o acervo e as exposições desenhadas pela casa. Para tanto, o museu vem investindo no desenvolvimento de uma plataforma tecnológica com “arquitetura de interface simples e intuitiva”.

Mostras ‘blockbusters’

O plano de “mundialização” tem, é claro, inegável viés econômico. Num continente imerso em crise, em que a visitação de museus está em queda, expandir-se na direção de mercados em ascensão é um bom caminho para obter mais recursos.

– Nosso orçamento já era frágil e, no ano passado, a verba do Estado caiu mais 5% (o equivalente a 3,5 milhões) – afirma Seban. – O Pompidou, no entanto, soube reagir aumentando suas receitas próprias, de 20 milhões para 30 milhões nos últimos cinco anos, graças, entre outras coisas, ao mecenato, à locação de espaços e ao desenvolvimento de exposições fora da França. Já fizemos parcerias com Benin, Líbano e África do Sul.

Seban é o décimo presidente do Pompidou e, após cinco anos, foi reeleito. Assim como oito de seus antecessores, não tem formação em arte. Ocupa o posto como um administrador do governo francês. Orgulha-se de, na primeira gestão, ter elevado o número de visitantes do museu em 40% (no ano passado, foram 3,6 milhões de pessoas) e de ter aumentado as receitas próprias do Pompidou em 50%.

Há, do ponto de vista curatorial, empenho em criar mostras que resultem em público. O próprio Seban comandou exposições de Kandinsky, Calder e Munch. A programação para 2012 reforça a busca por blockbusters. Estão agendadas retrospectivas do alemão Gerhard Richter (o pintor vivo mais bem cotado em leilões) e do surrealista Salvador Dalí. [Yahoo!]