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Xenofobia, o grande mal da França. E por que o Brasil deve tomar cuidado

Imagem: Anna Geddes

Nicolas Sarkozy está desesperado. Vendo minguar suas expectativas de ser reeleito em maio e continuar na Presidência francesa, ele resolveu apelar. Isso significa cortejar o eleitorado do partido de extrema direita Front Nacional e tentar roubar parte dos votos da candidata Marine Le Pen. Sarkozy afirmou, há poucos dias, que “há imigrantes demais na França” e ameaçou retirar o país do espaço Schengen, que garante a livre circulação de pessoas pelos Estados-membros da União Europeia.

Ainda piores do que essas promessas tacanhas para barganhar migalha de eleitor racista são as políticas de imigração que Sarkozy vem de fato pondo em prática – e que foram intensificadas à medida que as eleições se aproximavam. Uma das mais chocantes é a chamada “Circulaire Guéant”, que leva o nome do ministro francês do Interior. A circular, divulgada em 2011, restringe a permissão de residência para estudantes estrangeiros na França. O texto foi revisado em janeiro, teoricamente para pegar mais leve, mas na prática a arbitrariedade corre solta.

A circular, como tudo que é malfeito, provocou confusão entre os burocratas. A solução foi aplicar as diretrizes a torto e a direito. Resultado: milhares de estudantes estrangeiros cujas permissões de residência venciam no meio do ano escolar tiveram a renovação negada e estão sendo intimados a deixar o país. Detalhe: sem conseguir terminar a graduação, o mestrado e até o doutorado. Outros milhares de estrangeiros, recém-formados na França e contratados por empresas francesas ou multinacionais para colocar seu aprendizado em prática no mercado de trabalho, também tiveram suas permissões negadas. Em Estrasburgo, onde estudei em 2009, a comunidade universitária se solidarizou com os estudantes e está brigando com as repartições públicas para regularizá-los. Mais de 20% dos alunos inscritos na Universidade de Estrasburgo são estrangeiros e as associações estudantis estimam que entre 600 e 800 deles tenham caído na ilegalidade. Desde o início do ano, as expulsões dobraram. Em Paris, centenas de franceses decidiram apadrinhar estudantes estrangeiros em risco de expulsão do país. Afinal, negar a um estudante que ele continue seu curso, além de ir contra qualquer noção sã de direitos do homem, fere a autonomia universitária. É como se a prefeitura ou o estado tivessem poder de decidir quem pode ou não frequentar a universidade pública, excluindo arbitrariamente os estrangeiros.

Atinge-se o limite entre civilização e barbárie. As medidas anti-imigração contra estudantes ferem absolutamente os princípios da República francesa e a tradição das universidades do país, que sempre se orgulhou de ser um polo cultural. Atrair estrangeiros pela qualidade e democracia do ensino; atrair estrangeiros por conta da riqueza da produção artística, literária e científica é um privilégio. É ter sua cultura valorizada a tal ponto que ela é espontaneamente exportada. A França está jogando isso no lixo. Enquanto isso, o Québec, província francófona do Canadá, propagandeia suas universidades e seu mercado de trabalho aos estrangeiros do mundo todo. Você quer ter seu currículo valorizado por uma experiência no exterior? Você ama Balzac e Stendhal? Quer aprender francês? Venha para o Canadá!

Um país que ofende seus imigrantes é xenófobo. Um Estado que trata seus estudantes como bandidos é bárbaro. Recentemente, nosso país mostrou ser capaz de ambas as atitudes: são inúmeras as denúncias de indústrias em território brasileiro que contratam imigrantes (de bolivianos até afegãos) em regime de trabalho escravo; são inúmeros os aplausos à polícia de certo estado por dar cacetada em universitários. Cuidado, Brasil, para não seguir os maus exemplos europeus. [Via Mulher 7×7]

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