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Renée de Carvalho, heroína franco-brasileira



Dia 15, Rio de Janeiro: compromisso para lutadores e lutadoras: o lançamento do livro Uma vida de lutas que traz trajetória de uma heroína da resistência na França e no Brasil, a garota francesa que se apaixonou por Apolônio de Carvalho e virou brasileira.

Por José Carlos Ruy

O título do livro tem a precisão das coisas simples: “Uma vida de lutas”. Ele conta a história da militante Renée France de Carvalho, nascida em Marselha (França), em 1925 e que lutou contra os nazistas em sua pátria, a França, encontrou-se com o dirigente comunista brasileiro Apolônio de Carvalho e, ao casar-se – com quem viveu os 62 anos seguintes – com ele, ganhou outra pátria: o Brasil.

O livro, organizado pela historiadora marxista Marly Vianna, por René Louis de Carvalho (seu filho) e pelo professor Ramón Peña Castro, já teve um lançamento em Brasília, em fevereiro, e agora está sendo lançado no Rio de Janeiro, no dia 15 de março (veja abaixo). É uma história de resistência, paixão, perseverança… e certeza na vitória do socialismo. Conta a história de uma garota francesa fiel à tradição rebelde de seu país. Lutou na Resistência francesa, militou no Partido Comunista do Brasil (depois Partido Comunista Brasileiro), após a ditadura de 1964 viu os filhos René e Raul presos com o marido. O nome que assina o prefácio (leia neste portal) dá a dimensão da importância do livro e, principalmente, da biografada: ninguém menos do que Luiz Inácio Lula da Silva, com quem lutou (ao lado de Apolônio) para fundar e estruturar o Partido dos Trabalhadores.

O título é simples, repito. E poderia ser mais simples ainda: “A vida de uma revolucionária”
A historiadora Marly Vianna selecionou, gentilmente, alguns trechos para os leitores do Vermelho:

Na Resistência francesa

“Eu fazia vários trabalhos, nem tanto ações espetaculares, mas um trabalho cotidiano intenso. Por exemplo, seguir agentes da Gestapo ou da polícia francesa, para saber onde eles moravam, procurar saber os caminhos que eles faziam para ir trabalhar e voltar para casa, para preparar atentados aos alemães. Havia atividades de informação, atividades de levantamento de áreas, atividades de ligação, de transmissão de material, de ordens, etc. E era preciso transportar armas.

Eu, sobretudo, viajava muito, nunca viajei tanto na minha vida! As viagens eram complicadas porque às 10 horas da noite havia o toque de recolher, às 10 ou 11 horas, dependia dos períodos, e tínhamos que ir para a estação bem mais cedo. Se fôssemos viajar às 2 horas da manhã, havia que chegar à estação antes das 10 ou das 11 horas. E quando carregávamos armas ou outro material, ficávamos muito expostos na estação, porque por lá passava a polícia francesa, a gendarmerie, passavam os soldados alemães, passava a gestapo, passava uma quantidade de polícias. ”

A clandestinidade no Brasil

“Por exemplo, essa fase – que nem durou tanto assim – em que o {João} Amazonas estava em nossa casa, ele dizia: “Por que vocês não vão a um cinema? Aproveitem que eu estou aqui, os meninos estão dormindo, eu tomo conta e vocês vão ao cinema”. Nós fomos três vezes. Eu poderia até dizer o nome dos filmes que vimos, porque a consciência ficava muito pesada por termos ido ao cinema!

Pensávamos: “Nós temos um companheiro de responsabilidade em nossa casa e o deixamos lá para ir ao cinema!” E nunca mais fomos. Um dos filmes que vimos foi O Idiota, um filme muito bonito, tirado do romance de Dostoieviski,com o Gerard Philippe. Lembro do filme não somente porque gostei, mas porque fiquei com a consciência pesada por tê-lo visto…”

Repressão pós-1964

“Quando o Apolônio já estava respondendo ao inquérito, depois dos 72 dias de incomunicabilidade, eu fui visitá-lo e insisti que tinha direito a vê-lo. Havia um oficial – nem todos os oficiais eram umas bestas – que me deu meia hora de visita. Foi a segunda vez que o vi e passei a visitá-lo normalmente. Um dia, quando o Apolônio estava nesse quartel de São Cristóvão, eu levei para ele um pacote de lenços de papel, que eu tinha levado para um dos meninos e que não aceitaram no quartel. Risquei o nome e escrevi ao lado o nome do Apolônio, que recebendo esses lenços se deu conta de que os meninos estavam presos.

Os meninos apanharam muito, foi terrível! Meu Deus… Houve dias assim… vocês sabem o que é vontade de urrar? Eu pegava o travesseiro para abafar. Foram dias horríveis.”

(Os “meninos” são os filhos de Renée e Apolônio, também presos naqueles anos ferozes – nota da redação). [Vermelho]

Lançamento:
Livraria da Travessa
Shopping Leblon
15 de Março, 19h
Av. Afrânio de Melo Franco, 290 loja 205 A – Rio de Janeiro
Telefone (21) 3138-9600

 

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